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Veterinária examinando cão com carrapatos, laboratório ao fundo
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Erliquiose canina: o que é, como identificar e como tratar

Transmitida pelo carrapato marrom, a erliquiose é uma das doenças infecciosas mais graves em cães no Brasil. Entenda as fases da doença, os sinais clínicos e por que o diagnóstico precoce salva vidas.

Mar 2026·9 min de leitura
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MV
Revisão técnica: Dra. Patricia Eliza de Almeida · CRMV-SP 10930

Resumo

A erliquiose canina é transmitida pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus e causa febre, hemorragias e trombocitopenia. O diagnóstico precoce é determinante: tratada na fase aguda, a recuperação é completa; na fase crônica, o prognóstico piora consideravelmente. Saiba reconhecer os sinais de alerta.

A erliquiose canina é uma doença infecciosa causada pela bactéria Ehrlichia canis, transmitida principalmente pelo carrapato Rhipicephalus sanguineus — o carrapato marrom do cão[1]. Amplamente distribuída no Brasil, a doença é considerada endêmica em praticamente todo o território nacional e representa uma das principais causas de trombocitopenia (queda de plaquetas) em cães atendidos em clínicas veterinárias[2].

Como ocorre a transmissão

O carrapato adquire a Ehrlichia ao se alimentar de um cão infectado. Após um período de incubação de 1 a 2 semanas no interior do vetor, a bactéria pode ser transmitida para um novo hospedeiro durante a próxima repasto sanguíneo[1]. Apenas a picada transmite a doença — o contato direto entre cães não é uma via de infecção. Por isso, o controle efetivo do carrapato é a principal medida preventiva.

Cães que frequentam áreas externas, parques, praias ou viajam com frequência têm maior exposição ao carrapato marrom e, portanto, maior risco de erliquiose.

As três fases da doença

A erliquiose canina evolui em três fases distintas, com prognóstico progressivamente mais grave conforme a doença avança sem tratamento[3].

Fase aguda (2 a 4 semanas após a infecção)

  • Febre (38,5–40°C ou mais)
  • Letargia e inapetência
  • Corrimento ocular e nasal
  • Linfadenopatia (gânglios aumentados)
  • Queda discreta de plaquetas — pode causar pequenas hemorragias (petéquias na pele ou mucosas)

Na fase aguda, o tratamento com doxiciclina é altamente eficaz e a recuperação completa é esperada na maioria dos casos[3].

Fase subclínica (semanas a meses)

O cão parece se recuperar, mas a bactéria persiste nos tecidos. Alterações laboratoriais discretas (trombocitopenia leve, hiperglobulinemia) podem ser detectadas em exames de rotina. Essa fase é traiçoeira: o animal parece saudável, mas a doença evolui silenciosamente[3].

Fase crônica (meses a anos sem tratamento)

  • Trombocitopenia grave com episódios hemorrágicos sérios (sangramento nasal, hematúria, melena)
  • Anemia não regenerativa por supressão da medula óssea
  • Pancitopenia (queda de todas as células sanguíneas)
  • Perda de peso acentuada, fraqueza e edema de membros
  • Uveíte, sangramento ocular e, em casos avançados, cegueira
  • Insuficiência renal e neurológica em estágios terminais

Cães na fase crônica grave têm prognóstico reservado mesmo com tratamento. A mortalidade na erliquiose crônica é significativamente maior do que na fase aguda[2][3].

Diagnóstico

O diagnóstico baseia-se em uma combinação de histórico clínico (exposição a carrapatos, sinais compatíveis), exame físico e exames laboratoriais[4]:

  • Hemograma completo — trombocitopenia é o achado mais consistente; anemia e leucopenia surgem nas fases mais avançadas
  • Bioquímica sérica — pode evidenciar hipoalbuminemia, hiperglobulinemia e aumento de enzimas hepáticas
  • Sorologia (RIFI ou ELISA) — detecta anticorpos contra Ehrlichia canis; falso-negativo possível nas primeiras semanas
  • PCR (reação em cadeia da polimerase) — método mais sensível e específico, detecta o DNA da bactéria mesmo antes da soroconversão[4]
  • Esfregaço sanguíneo — raramente, é possível visualizar as mórulas (inclusões bacterianas) dentro de monócitos

É importante lembrar que animais soropositivos em fase subclínica podem não apresentar sintomas evidentes. Exames de rotina semestrais são fundamentais para detecção precoce em áreas endêmicas[2].

Tratamento

O antibiótico de escolha é a doxiciclina, administrada por via oral na dose de 10 mg/kg uma vez ao dia (ou 5 mg/kg duas vezes ao dia) por um mínimo de 28 dias[3][4]. Cursos mais curtos estão associados à recidiva. O tratamento deve ser iniciado o mais rapidamente possível após a suspeita clínica — aguardar confirmação sorológica em casos agudos graves pode custar a vida do animal.

  • Fase aguda: doxiciclina isolada, com resposta clínica esperada em 24–72 horas
  • Fase crônica grave: pode ser necessário suporte com transfusão de sangue ou plasma, fluidoterapia, estimulantes de medula óssea e internação
  • Corticosteroides em doses imunossupressoras podem ser usados no curto prazo em casos com trombocitopenia imunomediada associada

Nunca interrompa a doxiciclina antes de completar os 28 dias, mesmo que o cão pareça totalmente recuperado. A interrupção precoce é a principal causa de recidiva.

Prevenção

Não existe vacina disponível para erliquiose canina no Brasil. A prevenção depende exclusivamente do controle do carrapato[1][2]:

  • Use acaricidas (antipulgas e anticarrapatos) de forma contínua — coleiras, spot-on ou comprimidos orais conforme orientação veterinária
  • Inspecione o cão após cada saída ao ar livre, especialmente em áreas de mata ou grama alta
  • Remova carrapatos manualmente com pinça de ponta fina, girando no sentido anti-horário, sem esmagar o corpo do parasita
  • Trate o ambiente doméstico com carrapaticidas quando houver infestação
  • Realize hemograma de rotina pelo menos uma vez ao ano — semestralmente em cães de área endêmica ou com histórico de carrapatos

Erliquiose e humanos

A Ehrlichia canis não é transmitida diretamente de cães para humanos. No entanto, o mesmo carrapato vetor pode transmitir outras espécies de Ehrlichia capazes de infectar pessoas, como E. chaffeensis[1]. O controle do carrapato protege simultaneamente cães e humanos que vivem no mesmo ambiente.

Referências
  1. [1]Harrus S, Waner T. Diagnosis of canine monocytotropic ehrlichiosis (Ehrlichia canis): an overview. Vet J. 2011;187(3):292–296. doi:10.1016/j.tvjl.2010.02.001
  2. [2]Moreira SM, Bastos CV, Araujo RB, dos Santos M, Passos LMF. Retrospective study (1998–2001) on canine ehrlichiosis in Belo Horizonte, MG, Brazil. Arq Bras Med Vet Zootec. 2003;55(2):141–147. doi:10.1590/S0102-09352003000200004
  3. [3]Neer TM, Breitschwerdt EB, Greene RT, Lappin MR. Consensus statement on ehrlichial disease of small animals from the infectious disease study group of the ACVIM. J Vet Intern Med. 2002;16(3):309–315. doi:10.1111/j.1939-1676.2002.tb02374.x
  4. [4]Mylonakis ME, Harrus S, Breitschwerdt EB. An update on the treatment of canine monocytic ehrlichiosis (Ehrlichia canis). Vet J. 2019;247:43–50. doi:10.1016/j.tvjl.2019.02.010
MV

Revisão técnica

Dra. Patricia Eliza de Almeida, MS, PhD

Médica-Veterinária · CRMV-SP 10930 · Fundadora da Vaibicho

Este conteúdo foi revisado por médica-veterinária registrada e é de caráter exclusivamente informativo e educativo. Não substitui avaliação clínica e consulta com médico-veterinário.

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